• Heli Gonçalves Moreira

Os Regimes de Trabalho em Turnos e os Dilemas Empresariais

Costumamos mencionar em nossos artigos, palestras e estudos técnicos a respeito dos regimes de trabalho que o “cobertor é curto”. Isso por conta da complexidade e ambiguidade da legislação, das interpretações da fiscalização e da Justiça do Trabalho, dos novos parâmetros legais, das diferentes ideologias dos sindicatos laborais e tantas outras causas.



Na verdade, esse “cobertor” sempre foi curto, especialmente quando as empresas se veem diante de dois dilemas que costumam vir à tona há necessidades de mudanças ou adequações dos modelos de regime de trabalho utilizados. Alguns exemplos dessas necessidades: fazer frente aos ajustes de demandas, fiscalizações do trabalho, ações trabalhistas, renovações de acordos coletivos, mobilizações sindicais, entre outras.

O primeiro dilema tem a ver diretamente com o dimensionamento, acréscimo ou redução, do efetivo de pessoal.


Essa situação ocorre quando a empresa está trabalhando com a sua operação no regime interrupto, com três turnos de trabalho, de segunda a sexta-feira ou de segunda a sábado e se encontra no limiar de sua capacidade produtiva.


Se a nova demanda requer uma operação contínua ou ininterrupta, durante sete dias por semana, a mudança irá implicar obrigatoriamente no aumento do efetivo de pessoal e custos correspondentes, da ordem de 33%, decorrente de uma quarta equipe para promover o revezamento das folgas, enquanto três equipes trabalham, uma descansa.


Uma situação similar e com impactos inversos ocorre quando a empresa utiliza o regime de trabalho ininterrupto e por razões de queda da demanda, necessita mudar para o regime interrupto, com cinco ou seis dias de trabalho, o que requer a redução de uma equipe, correspondente a 25%, além de outros impactos relevantes, como demissão coletiva, implicações sindicais.


Além desses, estarão presentes outras consequências igualmente importantes, relacionadas diretamente com os domingos, tais como: ausência da liderança, folgas ao longo da semana, os paradigmas dos sindicatos laborais, autorização para o trabalho, etc.


O segundo dilema está relacionado a uma eventual mudança do modelo de regime utilizado, se de revezamento para horários fixos ou o contrário.


Em qualquer uma dessas situações os impactos são consideráveis, uma vez que interferem com os custos operacionais, com o estilo de gestão da empresa, com a vida pessoal e familiar dos colaboradores, com os aspectos culturais regionais, com as peculiaridades do ramo de atividade da empresa, com os paradigmas e tendências dos sindicatos dos trabalhadores, entre outros.


Nossas inúmeras experiências de mudança, especialmente do regime de revezamento para o de horários fixos, indicam que leva um tempo considerável, de um a dois anos, para que o novo modelo se consolide, seja por parte da empresa, da liderança e dos colaboradores. Tanto que desenvolvemos um manual específico para a gestão do regime de horários fixos, envolvendo mudanças e adaptações em praticamente todos os serviços e rotinas ao pessoal, como atendimento, ambulatório médico, exames periódicos, segurança no trabalho, funcionamento da cipa etc., além da liderança e gestão operacional.


Apesar do “cobertor curto” e dos dilemas empresariais, o tema envolvendo regimes, escalas, jornadas e horários de trabalho e descanso, representa um dos aspectos mais relevantes da organização do trabalho, pois impacta diretamente a produtividade da empresa e a saúde, segurança e qualidade de vida dos colaboradores.


Heli Gonçalves Moreira

© HGM Consultores.